Avisar as suas parcerias
Para quem contar, até quando voltar no tempo e o que fazer se você não tiver como contatar a pessoa.
Este é frequentemente o passo mais delicado, superando até o susto inicial do diagnóstico. Veja uma forma lúcida, prática e respeitosa de lidar com essa situação.
Até quanto tempo antes é preciso avisar
Cada infecção tem sua janela retrospectiva de contato (janela de look-back) — o intervalo de tempo no qual é clinicamente indicado avisar parcerias anteriores.
| Infecção | Janela recomendada | Detalhes |
|---|---|---|
| Clamídia | 6 meses | 4 semanas em caso de sintomas uretrais; caso contrário 6 meses ou até a parceria anterior se o contato foi há mais tempo |
| Gonorreia | 3 meses | 2 semanas na presença de sintomas na uretra; 3 meses para os demais casos |
| LGV | 60 dias | Subtipo mais agressivo de clamídia (linfogranuloma venéreo) — acompanhado com urgência clínica |
| Sífilis — Estágio primário | 90 dias | Mais a duração do cancro sifilítico (ferida indolor) |
| Sífilis — Estágio secundário | até 2 anos | O estágio clínico define o prazo; o médico indicará a classificação correta |
| HIV | até o último exame com resultado negativo | Todas as parcerias desde aquela data. Se nunca fez o teste antes, o serviço de saúde ajudará a estimar o período |
| Hepatite B / C | variável | Avaliado caso a caso, incluindo exposições não sexuais |
Esses intervalos podem variar um pouco de acordo com os protocolos locais. Na dúvida: avisar com uma margem maior custa apenas algumas mensagens a mais, mas quebra várias cadeias de transmissão.
O objetivo não é procurar culpados nem descobrir quem passou para quem. A realidade é que, durante todo o tempo em que a infecção esteve ativa, ela pôde circular silenciosamente em qualquer direção. Essa janela serve para alertar pessoas que nem imaginam estar com algo — o que, pela ausência frequente de sintomas, é o caso mais comum.
Quando você não tem o nome nem o contato direto
Essa é uma situação super comum e não representa, de modo algum, um erro moral. Veja as alternativas ao seu alcance, da mais simples à mais estruturada:
O app de paquera ou pegação onde se conheceram. Na maioria dos aplicativos, a conversa continua salva mesmo que a conta esteja desativada. Muitas vezes, uma mensagem enviada ainda faz o celular da pessoa apitar.
Serviços de notificação anônima para parceiros. Em vários países existem sites e ferramentas comunitárias gratuitas que mandam um SMS ou e-mail avisando que a pessoa pode ter se exposto a uma IST e sugerindo que faça exames — sem revelar quem mandou. Você só precisa do número de telefone ou e-mail.
Apoio da rede pública ou serviços especializados. Em muitas cidades, postos de saúde, CTAs/SAEs e serviços de saúde pública podem ajudar a fazer o contato com as parcerias por você, seguindo protocolos cuidadosos que mantêm seu sigilo absoluto.
O local do encontro. Em saunas, darkrooms, festas ou eventos onde não existe contato direto: converse com os organizadores ou com o local para que avaliem colocar um comunicado discreto ou reforçar alertas de prevenção.
O que escrever na mensagem
Uma mensagem direta e clara funciona muito melhor do que um texto longo e cheio de rodeios. Ficar se desculpando demais soa como culpa e abre espaço para brigas desnecessárias neste momento.
«Oi! Fiz exames hoje e testei positivo para [infecção]. A gente ficou por volta de [data], então achei importante te avisar para você poder fazer os exames também. É tranquilo de tratar e no meu caso já está tudo resolvido. Se tiver qualquer dúvida me avisa, senão fica tranquilo.»
Três coisas garantem que a mensagem cumpra seu papel: informar a infecção exata, dar a data aproximada (para a pessoa se localizar) e pontuar que tem tratamento fácil. O que evitar a todo custo: ficar discutindo quem passou para quem, pedir desculpas infinitas ou misturar com discussões sobre o relacionamento. Vocês podem conversar sobre isso depois se quiserem.
Algumas pessoas podem reagir com grosseria ou raiva. Isso diz respeito apenas à maturidade delas ao lidar com emoções e não tira em nada o valor da sua atitude madura e responsável em ter avisado.
Perguntas que todo mundo faz
Tenho obrigação legal de avisar minhas parcerias?
A legislação varia por país e pelo tipo de infecção; no caso do HIV, alguns lugares contam com previsões legais específicas. Para a imensa maioria das ISTs bacterianas, trata-se de um dever de responsabilidade ética e cuidado coletivo, e não de um crime. Se tiver dúvidas legais sobre a sua região, converse abertamente com um profissional de saúde.
Preciso dar a cara a tapa e me identificar?
Não necessariamente. As ferramentas anônimas existem exatamente porque a outra opção seria o silêncio — e um SMS anônimo que leva alguém a fazer exames e se tratar é uma grande vitória para a saúde de todo mundo. Ninguém está testando a sua coragem.
E se eu não lembrar com certeza de quem era nem quando foi?
Fale exatamente isso durante a consulta. Os profissionais de saúde estão acostumados com referências vagas — um lugar, uma época do ano, uma aproximação. Informações incompletas fazem parte da rotina e ninguém vai te julgar. É também um excelente motivo para manter um diário privado de encontros — porque com o tempo a memória falha.
Mesmo com mensagem anônima, a pessoa vai sacar que fui eu.
Às vezes sim — se ela só transou com você naquele período, fica óbvio. Nesse caso a questão é simples: você prefere contar ou deixar que ela descubra de outro jeito? Contar direto quase sempre se resolve de forma bem mais tranquila.
- BASHH — Declaração sobre notificação de parceiros, 2012 (PDF)
- CDC — Diretrizes para o tratamento de infecções sexualmente transmissíveis, 2021 (PDF)
- As ferramentas de notificação variam por localidade — seu serviço de saúde de referência saberá quais são as mais utilizadas no momento.
Esta página traz informações gerais e não substitui consulta médica. Diretrizes de saúde diferem por região e evoluem ao longo do tempo. Em caso de dúvidas sobre sua situação individual, procure um médico ou um centro de saúde. O Candor é um app de acompanhamento pessoal; não faz diagnósticos, não trata nem prescreve medicamentos.
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