Avisar os teus parceiros
A quem dizer, até quando recuar no tempo e o que fazer se não tiveres forma de voltar a contactar a pessoa.
Este é muitas vezes o passo que mais intimida, superando por vezes o próprio choque do diagnóstico. Eis a forma mais lúcida, pragmática e humana de lidar com a situação.
Até quanto tempo antes é preciso avisar
Cada infeção tem a sua janela retrospetiva de contacto (janela de look-back) — o intervalo temporal no qual é clinicamente necessário alertar parceiros anteriores.
| Infeção | Janela a abranger | Pormenores |
|---|---|---|
| Clamídia | 6 meses | 4 semanas em caso de sintomas uretrais; caso contrário 6 meses ou até ao parceiro anterior se o contacto tiver ocorrido há mais tempo |
| Gonorreia | 3 meses | 2 semanas na presença de uretrite sintomática; 3 meses para os restantes casos |
| LGV | 60 dias | Subtipo mais agressivo de clamídia (linfogranuloma venéreo) — acompanhado de forma autónoma e com urgência |
| Sífilis — Fase primária | 90 dias | Mais a duração do cancro sifilítico (úlcera indolor) |
| Sífilis — Fase secundária | até 2 anos | O estádio clínico orienta a janela; o centro de saúde definirá a tua fase clínica |
| VIH | até ao último teste com resultado negativo | Todos os parceiros desde essa data. Se nunca realizaste um teste, a equipa médica ajudará a delimitar o período |
| Hepatite B / C | variável | Analisado caso a caso, incluindo exposições não sexuais |
Estes intervalos variam de país para país — as diretrizes norte-americanas indicam frequentemente 60 dias para clamídia e gonorreia, ao passo que as britânicas e europeias sugerem prazos mais alargados. Na dúvida: uma janela mais ampla custa apenas mais algumas mensagens incómodas, mas quebra muitas mais cadeias de transmissão.
O objetivo não é procurar culpas nem saber quem infetou quem. A questão é que durante todo o tempo em que a infeção esteve presente, pôde circular silenciosamente em ambos os sentidos. Esta janela está desenhada para alertar também pessoas que não teriam qualquer suspeita — o que, dada a ausência frequente de sintomas, é o panorama mais comum.
Quando não tens nome nem contacto direto
É a situação mais comum e não constitui, de forma alguma, um fracasso moral. Estas são as opções ao teu alcance, ordenadas por esforço emocional:
A app de engate onde se conheceram. Na maioria das plataformas, o histórico da conversa fica acessível mesmo que o perfil esteja inativo. Por vezes, uma mensagem enviada a uma conta desativada continua a gerar notificação no telemóvel.
Serviços de notificação anónima a parceiros. Em vários países existem ferramentas online gratuitas que enviam um SMS ou email ao teu parceiro: avisando-o de que pode ter estado exposto a uma IST e recomendando um rastreio — sem nunca expor o teu nome ou identidade. Precisam apenas do número de telemóvel ou email. Pergunta no teu centro de saúde sexual que plataformas são recomendadas a nível local.
Notificação através dos serviços de saúde pública. Em muitas localidades, os checkpoints ou as equipas de saúde pública podem encarregar-se de contactar os parceiros por ti — seguem protocolos consolidados e salvaguardam sempre o teu anonimato. É um processo de rotina e inteiramente gratuito.
O local do encontro. Numa sauna, num darkroom, numa festa de sexo ou num evento privado onde não exista forma de contacto individual: informa os promotores ou o espaço para que possam colocar um aviso discreto ou emitir uma comunicação geral. Por vezes é o único caminho viável, e é plenamente legítimo.
O que podes escrever de forma concreta
Uma mensagem curta e factual funciona infinitamente melhor do que um texto longo e hesitante. Grandes justificações soam a assunção de culpa e abrem a porta a discussões que não precisas de enfrentar nesta altura.
«Olá — hoje tive resultado positivo para [infeção]. Tivemos relações por volta de [data], era conveniente fazeres um rastreio também. Trata-se com facilidade e no meu caso já está tudo encaminhado. Se tiveres dúvidas diz-me, caso contrário tudo tranquilo.»
Três elementos garantem que a mensagem cumpre o seu papel: especifica a infeção exata, fornece a data aproximada (para que a pessoa possa balizar o período) e refere que é de fácil resolução. O que deves evitar em absoluto: formular conjeturas sobre quem transmitiu a quem, desculpas excessivas pelo simples facto de existires ou considerações sobre o estado da vossa relação. Poderão falar disso mais tarde se algum de vocês o pretender.
Algumas pessoas poderão responder com agressividade ou zanga. Isso traduz unicamente a forma como gerem as suas emoções e não retira qualquer mérito à tua coragem e responsabilidade em tê-las avisado.
Perguntas que toda a gente faz
Tenho obrigação legal de avisar os parceiros?
Varia conforme a legislação de cada país e o tipo de infeção; no que toca ao VIH, certos regimes jurídicos consagram disposições penais específicas. Para a grande maioria das IST, as autoridades de saúde encaram a notificação como um dever ético e de saúde pública, mas não como uma imposição penal. Se este aspeto legal te suscitar dúvidas, esclarece-o abertamente com os profissionais do centro de saúde — ser-te-á prestada informação clara.
Tenho de dar a cara e revelar quem sou?
Não. Os mecanismos anónimos existem exatamente porque a alternativa seria, muitas vezes, o silêncio — e um SMS anónimo que motiva alguém a fazer um teste é uma vitória completa para a saúde pública. Ninguém está a avaliar a tua coragem.
E se não me lembrar de todo de quem era nem de quando foi?
Diz isso com toda a clareza na consulta médica. Nos serviços de saúde sexual estão mais do que acostumados a lidar com referências vagas — um espaço, um fim de semana, uma estimativa genérica. Dados incompletos acontecem diariamente e ninguém te vai julgar. É também a melhor justificação para começares a usar um diário pessoal privado — porque é nestas alturas que a memória nos trai.
Mesmo com um aviso anónimo, a pessoa vai perceber logo que fui eu.
Por vezes sim — se teve apenas um parceiro nesse intervalo de tempo, a dedução é direta. Nesse cenário a escolha reduz-se a: preferes contar tu ou deixar que descubra sozinha? A primeira alternativa resolve-se quase invariavelmente de modo muito mais pacífico.
- BASHH — Declaração sobre notificação a parceiros, 2012 (PDF)
- CDC — Diretrizes para o tratamento de IST, 2021 (PDF)
- As ferramentas de notificação anónima diferem consoante o país — o teu centro de saúde sexual saberá quais os serviços em utilização na tua região.
Esta página faculta informações gerais e não constitui aconselhamento médico. As diretrizes nacionais diferem e evoluem ao longo do tempo. Para qualquer dúvida sobre a tua situação individual, consulta um médico ou um centro de saúde sexual. O Candor é uma app de registo pessoal; não diagnostica, não trata nem prescreve medicamentos.